Golfinhos são flagrados tentando afogar filhote recém-nascido

Mãe tenta repetidamente erguer filhote para fora da água para protegê-lo
"Esta é uma das histórias mais cruéis da natureza: um recém-nascido desamparado é ameaçado ou até morto por membros de sua própria espécie.



Chama-se infanticídio e é algo que acontece em várias espécies, de leões a primatas. Mas raramente é observado entre golfinhos, criaturas amplamente vistas como dóceis.

Entretanto, pela primeira vez, cientistas puderam testemunhar quando uma fêmea de golfinho-nariz-de-garrafa deu à luz em seu habitat natural, mas teve seu filhote atacado minutos depois.

O incidente ocorreu em agosto de 2013 e foi descrito em um artigo publicado na semana passada na revista científica Marine Mammal Science.

Nele, a bióloga Robin Perrtree, da Savannah State University, nos Estados Unidos, conta como dois machos tentaram afogar o bebê golfinho dois minutos depois de nascido, perto da ilha de Tybee, no Estado americano da Geórgia.

Mãe e filhote acossados

Perseguição à fêmea e filhote durou quase duas horas
Os golfinhos-nariz-de-garrafa são a espécie mais dispersa desse animal, o que torna impressionante o fato de cientistas nunca terem observado um parto fora do cativeiro.

Quando Perrtree e seus colegas se aproximaram de um grupo de golfinhos, notaram uma fêmea aparentemente se debatendo na água e logo viram seu filhote. Ele estava cercado de sangue, provavelmente liberado pela placenta da mãe.

"As águas estavam muito enlameadas, então tínhamos pouca visibilidade", lembra a bióloga. Por isso, o grupo ficou surpreso ao testemunhar o parto.

"Passamos a filmar a cena, mas de repente, dois outros animais se juntaram ao grupo e começaram a tentar afundar o filhote", descreve Perrtree.

Ataque premeditado?

Fêmeas de cetáceos passam anos sem acasalar por causa dos cuidados com a cria

Cada vez que a dupla tentava afogar o bebê, a mãe o empurrava para fora da água, pousado sobre sua cabeça para poder respirar.

Mas os dois machos continuaram a empurrar o recém-nascido para o fundo do mar por mais 30 minutos. Perrtree se disse chocada ao ver como eles "pulavam em cima do bebê".

A dupla de golfinhos ainda perseguiu a mãe e o filhote por duas horas e meia. Eles pararam de atacá-los fisicamente, mas continuaram com um comportamento agressivo debaixo d’água, como mostrou uma gravação acústica feita pelos pesquisadores.

Apesar de admitir não ter certeza, a bióloga acredita que o ataque pode ter sido premeditado. Os machos foram observados nadando em torno da mãe uma hora e meia antes do nascimento, talvez rastreando-a para preparar o infanticídio.

"Talvez tenha sido coincidência, mas a atitude dos machos levanta a questão de se eles estariam ou não monitorando a fêmea antes do parto", explica Perrtree.

Fenômeno comum?

O infanticídio é raramente observado em cetáceos, o grupo que inclui golfinhos, baleias e botos.

O fenômeno já foi testemunhado duas vezes entre golfinhos-nariz-de-garrafa, mas esta foi a primeira vez que se viu uma tentativa de afogar o filhote. Nos casos anteriores, o bebê era arremessado ao ar para provocar ferimentos e exaustão.

A nova descoberta mostra que os ataques podem acontecer debaixo d'água, o que os torna mais difíceis de serem notados. Por isso, o infanticídio entre golfinhos pode ser mais comum do que se imagina.

"Este é um dos muitos fatores que podem causar a morte de um filhote jovem", afirma Perrtree. "Acho que ninguém esperaria uma tentativa de matar um bebê minutos após o nascimento. Em outros cetáceos, isso ocorreu de dias a semanas depois."

Cientistas acreditam que machos cometem infanticídio para liberarem as fêmeas para o acasalamento. Se uma fêmea de golfinho tem que cuidar de um filhote, ela chega a passar anos indisponível. Mas se ela perde o bebê logo após o parto, pode estar pronta para acasalar novamente meses depois.

A equipe americana não sabe o que aconteceu com a mãe e o filhote observados. Eles foram notados 24 horas depois, mas desde então não foram mais vistos.

Isso não chega a ser surpreendente. Antes do incidente, a mesma fêmea passou três anos sem ser vista. Por isso, é possível que ela e seu filhote estejam a salvo em algum lugar dos oceanos."
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About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

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Revista- WMB

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