Pássaros aprendem 'truque' para evitar concorrência de ruído dos aviões

O estudo espanhol explica que cantos prematuros podem expor aves a predadores noturnos
"Nada como despertar com o canto dos pássaros.

O cuco, por exemplo, normalmente começa a cantar 20 minutos antes do amanhecer, mas no aeroporto de Barajas, em Madri, "abre o bico" quase uma hora antes. Já o chapim-azul e o pintassilgo se adiantam em meia hora.

Predadores alertados

O horário de canto das aves está relacionado ao tamanho dos seus olhos. Quanto maiores, mais cedo começam a cantar, pois precisam de menos luz para desenvolver suas atividades.

"As aves cujos cantos coincidem com a partida dos voos adiantam mais, algo que os pássaros que normalmente cantam mais cedo não precisam fazer", acrescenta Gil.

O cuco foi um dos pássaros mais afetados pelo ruído dos aviões: nos locais estudados começou a cantar até uma hora mais cedo que o normal
Segundo o estudo, as mudanças de horários demonstram a capacidade das aves de se adaptar ao meio-ambiente e sobreviver em zonas extremamente ruidosas.

À primeira vista, cantar mais cedo pode ser uma vantagem, pois permite uma comunicação que de outra maneira seria impossível.

Mas também há grandes desvantagens.
"O tempo que as aves passam cantando é tempo em que deixam de se alimentar", afirma Gil.

"Se o equilíbrio é afetado, possivelmente as aves têm de se alimentar em horas em que, por exemplo, pode haver menos comida. Isso também pode significar que elas tenham que dormir menos."
Gil também suspeita que o canto adiantado possa ameaçar a seguranca das aves.

"Ainda não conseguimos comprovar, mas a lógica sugere que quanto mais as aves cantem no escuro, mais vulneráveis fiquem a predadores noturnos que têm dificuldade para detectar", especula.

Calendário

O aeroporto de Barajas, em Madri, foi um dos locais estudados pelos pesquisadores do Museu de Ciências Naturais da Espanha
Os pesquisadores da equipe do Museu Nacional também tiveram a preocupação de observar as aves nos fins de semana, período em que a frequência de voos é menor.

"Não notamos diferença", disse Gil. "É possivel que essas populações tenham alterado seus padrões de canto de forma permanente."

Mas se o ruído afeta tanto a rotina das aves e pode torná-las mais vulneráveis, porque elas não voam para outro lugar?

"É muito difícil para um pássaro mudar de lugar. O normal é que houvesse menos aves em lugares assim (como os arredores de aeroportos), mas descobrimos que, surpreendentemente, não há diferença nem na variedade nem no número de espécies", explica Gil.

"Queremos ver agora se as aves que aguentam essas condições são aquelas que não têm como competir por territórios melhores."
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